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BRINCANDO COM A PSICOACÚSTICA 1: Mémoria auditiva

22.09.2017

Um dos campos onde eu mais me diverti em minhas etapas de treinamento e pesquisa é sem dúvida, a psicoacústica.


Devido à minha natureza baseada na compreensão e na tentativa de descobrir o porquê das coisas sempre fui a shows mas estes pareciam ruim, eu estava relutante em pensar que era por causa do técnico.
 

Às vezes, quando tinha a sorte de conhecê-los sabia antecipadamente que era quase impossível eles mixar o trabalho de forma errada , mas ao mesmo tempo havia algo na mixagem que me fazia querer ir para casa em vez de curtir o show.
 

Como pode acontecer isso? A forma mais fácil (e habitual) é resolver essa discussão colocando a culpa no técnico, mas comecei a me perguntar se talvez não fosse eu quem ouvia as coisas de forma diferente. Definitivamente, o resto do público continuou a desfrutar do show e não pareciam estar com raiva pela mesma mixagem que para mim parecia horrível. Eu sou surdo e não ouço direito? O que estava acontecendo ?

 

Começarei esta série de artigos propondo nos afastar das vicissitudes técnicas e nos aproximar da imperfeição humana. Com base nos conceitos básicos de psicoacústica, estes textos nos ajudarão a resolver alguns dos problemas mais comuns que encontramos em nosso trabalho e que não conseguimos resolver. Diante deste tema, ainda aguardo resposta para um questão que publiquei há algumas semanas: como é que o ser humano, com apenas dois ouvidos, é capaz de reconhecer se um som vem da frente ou de trás?

 

Ouvir é mais do cérebro que do ouvido

Os mais velhos, sem dúvida, reconhecerão essas curiosas histórias. Você lembra quando os telefones eram analógicos, com pulsos e não tinham tela  aparecendo o número? Nós ligávamos para casa e a pessoa mais próxima do aparelho atendia e falava o famoso “Alô“.

Esse ‘’Alô’’ fazia com que o cérebro começasse sua catarse: Até que a pessoa não falasse o próximo "Alô" tinhamos que resolver na velocidade da luz quem estava do outro lado da linha. Em ambientes familiares, era mais difícil isso acontecer, assumindo que todos se reconheciam, mas isso não acontecia em outros casos.

 

Os telefones analógicos (e até os digitais mais atuais) usam um método de compressão de dados muito eficiente: eles reduzem a resposta de freqüência em uma largura de banda para assim enviar menos dados.

 

A voz tem sua freqüência dominante entre 2 e 6 kHz,  tudo abaixo e acima é inútil se queremos focar somente na mensagem. Comprimir era bom mas desconsiderava um fato: são aqueles harmônicos superiores e inferiores que determinam o timbre de cada um de nós mas o telefone os eliminava e os desperdiçava. Em contrapartida, quando nos ligavam e o interlocutor nos reconhecia logo começava logo nos perguntar sobre como estávamos, como estava nosso pai ou mãe e etc...

 

Que raiva! Embora eu conhecesse a voz  não conseguia conecta-la a um individuo, mas de repente reconhecia: era tio Jose! Naquele momento, aquela voz distante, fora do lugar, parecia que estava sendo proferida por alguém que estava realmente do meu lado, falando dentro de dois centímetros de minha cabeça. Bem-vindo psicoacústica.

 

No momento exato em que nosso cérebro sabe de quem é a voz, recorre as memórias armazenadas para reconstruir o som que chega até nós.Em tempo real, o cérebro adiciona todas as nuances que o telefone não pode oferecer porque jogou fora e nos oferece esse sentimento de proximidade com o nosso interlocutor.

 

A marca Bose, entre outras coisas, foi reconhecida pela série de caixas Acoustimass. Elas foram baseadas nesse mesmo princípio citado acima. Foram capazes de entregar um som contundente e "espetacular" usando mini-cubos conjunto a um subwoofer pequeno. Era um verdadeiro escândalo sonoro!

 

Nas primeiras demonstrações desses sistemas foram feitas algumas ‘’armadilhas’’ propositais: os espectadores ouviam um par de alto-falantes do tipo coluna que tinha mais de 1 metro de altura; e quando os ouvintes estavam convencidos da qualidade do equipamento , alguém tirava de dentro daquelas caixas esses minicubos pequenos e surpreendiam o público. Eu comprei algumas dessas caixas. As tive na minha casa por alguns meses: elas eram muito boas, mas me fatigavam.

 

A Bose não inventou a habilidade de uma caixa pequena reproduzir perfeitamente todas as freqüências do espectro sonoro, mas jogou habilmente com novas equalizações drásticas  e outros elementos para alcançar uma sensação de resposta absoluta, eles deixavam para o cérebro de forma constante a reconstrução dos sons que eram impossíveis de se reproduzir fisicamente.

 

Assim , depois de um longo tempo ouvindo as caixas minha cabeça quase explodia cansada de recalcular as freqüências e gerar memórias dos sons não emitidos. O mesmo acontece com os MP3s.

 

 

Observando como se testa alguns equipamentos sonoros

 

Linn Products é uma pequena, estranha, mas prestigiada fabricante de produtos Hi-Fi. Eu os conheci há um bom tempo e eles me surpreenderam quando os visitei para escutar seus equipamentos musicais: algo interessante é que nunca me permitiram usar meus próprios CDs. Com o tempo, eu não lhes dei razão ,mas entendi o porquê. Eles estavam tão orgulhosos de suas equipes que podiam se arriscar nessa experiência.

 

Baseado na premissa anterior, eles sabiam que nosso cérebro seria capaz de reconstruir a infinidade de detalhes sonoros mesmo que as caixas não as reproduzisse. Então, eles pediam que você escutasse seus equipamentos com uma música que não conhecesse para evitar que tudo que não fosse ouvido não fosse reconstruído pelo cérebro.

 

Quando você experimenta um equipamento de som com uma música que você conhece, é provável (não tenho certeza) que seu cérebro te engane, até porque o cérebro não se controla.

Essa experiência faz você ouvir graves profundos e controlados, onde não há nada além do rebote acústico , pode escutar até uma adição no tempo da reverberação quando não foi adicionado nada. Se, em vez disso, você testar um equipamento com uma música que você não conhece demais, você será obrigado a ouvir o que você ouve: seu cérebro não saberá se há uma linha de baixo definida, um detalhe nos agudos para apreciar ou se há inteligibilidade nas palavras.

 

Se você ouvir uma música em seu idioma nativo, é fácil você "reconhecer" as palavras faladas mesmo num ambiente ruidoso. Por outro lado, se você ouvir algo em um idioma diferente que você conheça um pouco , mas que não é habitual, o simples fato de reconhecer facilmente as palavras fará você concordar com a reprodução, precisamente, no espectro mais crítico para o ser humano e a palavra: entre 2 e 6 kHz.

 

Mesmo assim, a memória auditiva ou acústica é muito volátil se não for corrigida na memória. O timbre da voz do meu tio José sempre será o mesmo, mas uma configuração específica no compressor para um bumbo que soa bem pode mudar dentro de alguns segundos, muito antes que o compressor possa ser ajustado novamente.

Portanto, muitos fabricantes de software incluem a opção A-B que nos permite fazer esta comparação rapidamente. E temos que fazê-la como consequencia obrigatoria do fato: se esperarmos por apenas 1 segundo entre dois sons para assim compara-los, seremos facilmente induzidos ao engano.

 

Antes de terminar este artigo, o primeiro de uma série lembremos de outro fato extremamente comum:

 

O músico pede que você aumente um pouco o volume do seu violão, quando você nem tocou em nenhum potenciômetro ele te da um ok.O mesmo acontece conosco (enquanto técnicos): a quantidade de ajustes que fazemos em uma console durante um show por vezes não exerce nenhuma função, somos enganados pelo nosso cérebro que nos leva a acreditar que os ajustes são viáveis.

 

Para resolver isso, vamos aproveitar o que dissemos agora: se a nossa memória acústica é volátil para o segundo, entre uma mudança e a comparação das seguintes podemos fazerum mini-reset da nossa percepção sonora.

 

Como? Enquanto ouvimos um bumbo e o modificamos devemos focar nossa atenção na caixa ou em algum outro elemento ... para depois voltar a ouvir o bumbo novamente, assim limpo de memórias poderemos ouvi-lo como soa realmente.

 

 

TRADUZIDO NA INTEGRA POR DOUGLAS BARBA

FONTE : hispasonic.com

 

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