© 2016 por BarbaAudioSolutions orgulhosamente criado para educação profissional.

First things first! ( Primeiro as prioridades )

15.06.2017

 

 

Precocemente decidi que viveria de música. Após essa escolha, uma de minhas primeiras providências foi estudar harmonia funcional. Circunstancialmente ( 25 anos atrás ) para mim, só havia uma escolha, Musiarte-RJ. Guardo belas lembranças desse tempo. No dia em que me apresentei para a matrícula, eu e alguns outros entusiasmados calouros fomos surpreendidos por um pequeno teste. O objetivo era avaliar o nível de instrução de cada "aspirante" para que fossemos encaixados ( de acordo com nossa prévia formação ) no "periodo" mais adequado do curso. O teste se restringiu basicamente a conhecimentos sobre notação musical e intervalos.

 

Era clara a intenção generosa e organizacional do teste, mas minha modesta bagagem de músico de bailes autodidata me constrangeu ao ser confrontada com material teórico. Não era algo "estranho" a mim, definitivamente. Mas eu não dominava essa linguagem ainda. Após alguns minutos de intensa frustração, um dos sócios e meu ( então ) futuro professor na escola, me disse: "... não se incomode com isso! Faça o período básico sobre teoria musical, domine a linguagem e tudo será melhor aproveitado por você no futuro! ".

 

Apesar de minha maior preocupação naquele momento ser com o custo final do curso ( que estava prestes a subir pelo acréscimo de um período ), imediatamente aceitei que ele estava coberto de razão e que era a coisa certa a fazer: aprender a "linguagem" ( da música ) com propriedade para depois absorver plenamente sua "literatura". Isso se aplica categoricamente também à língua falada e escrita. Sem o domínio prévio da língua nossa comunicação incorre sistematicamente no risco de se transformar numa agonizante, ineficiente e perigosa troca de palavras apenas. Mas o que ficou em âmbito geral foi a lição sobre prioridades: primeiro, o que for mais importante naquele momento.

 

Pois bem, prioridade em áudio também não é opção é uma demanda prévia.

 

Em shows ao vivo, os subs "respondem" por pouco mais de uma oitava do audio a ser reproduzido. Em alguns poucos sistemas essa margem chega a duas oitavas. Já as oito oitavas ( aproximadamente ) restantes, estão a cargo da "parte de cima". 


Observando os melhores sistemas da atualidade ( estamos tratando de um número muito pequeno ), existe essa clara idéia de que: primeiro "há o PA..." e então uma complementação das freqüências subgraves. Parece claro que num futuro próximo, isso possa desaparecer de vez. A possibilidade de uma "unificação" tem se tornado cada vez mais viável. Nesse momento, o controle da dispersão ( e consequentemente a qualidade da cobertura ) a que estamos chegando, tem trazido resultados mais previsíveis e naturais para as frequências subgraves. Além do mais, em diversas ocasiões, essa complementação é dispensável, seja pelo programa musical a ser "reforçado", seja pela capacidade do sistema em reproduzir satisfatoriamente audio à partir dos 40Hz, por exemplo. Até porque, quando somos submetidos a uma grande energia em subgraves, nossa percepção do restante do espectro fica comprometida, alterada. Os mais recentes estudos em psicoacustica têm aprofundado bastante esse entendimento. Considerando tudo isso, honestamente não sou capaz de diagnosticar se essa espécie de obsessão recente por subs é alimentada por essa "sensação alterada", por alguma avidez comercial ou por uma certa infantilidade talvez. Realmente não sei. O que posso dizer com convicção é que isso tem desviado a atenção de algo bem mais determinante para o resultado final.

 

Softwares de predição e "alinhamento"


Os melhores sistemas da atualidade possuem todos, excelentes softwares de predição. São de fato, brilhantes algoritmos capazes de cálculos bastante sofisticados. Temos inclusive, algumas gratas surpresas por aqui em sistemas nacionais, funcionando ( os softwares ) realmente bem como estimativa de níveis, curva e dispersão. 


Com subs, temos gabinetes fabricados por aqui "baseados" em modelos bem sucedidos lá fora que "herdaram" seus softwares. Probidade à parte, isso viabiliza de fato, predições bastante consistentes já que nem a manufatura nem a demanda de componentes para os mesmos, possui a complexidade dos line arrays ( além disso há uma outra virtude em subs que consideraremos mais adiante ), permitindo cópias que correspondam fielmente aos dados "previstos" pelo software. Mas a rigor, essas predições nos apresentam a curva esperada para o máximo de desempenho do sistema em um determinado ponto da audiência. Para os melhores sistemas da atualidade, isso basta. Mas para todo o resto não.

 

Já mencionei em outro post uma variável de extrema complexidade e interferência no desempenho de sistemas: a mixagem que lhes é "entregue". Mas para essa reflexão, vamos imaginar um mundo mais próximo do ideal. 


Eis o cenário:


Estamos no FOH fazendo um "virtual soundcheck", com uma mix razoável. 


Por simplificação, vamos considerar que nossa mix seja monaural e que a estamos usando por "função de transferência" como referência para monitorar a curva do sistema ( nesse caso, reforço sonoro ao ar livre com mínima incidência de reflexões ). Com os subs desligados, se variarmos nesse ponto, o SPL entregue pelo PA ( não deixando, claro, de monitorar a relação entre medição e referência no software que executa a FT ) em "saltos" de digamos 6dB SPL, testemunharemos claramente uma das mais evidentes diferenças entre um "grande" sistema e a maioria. A quase totalidade dos sistemas que utilizamos sofre visíveis variações na curva em níveis diferentes. A 96dB SPL temos uma leitura na FT, a 102 uma outra, a 108 algo bem distinto e assim por diante. O entendimento desse fenômeno é relativamente simples em verdade. Mas isso não deveria ser comum e nem aceito como banal.

 

Há alguns anos já possuímos as ferramentas que nos possibilitam equacionar dinamicamente a curva de um sistema em diferentes níveis de SPL. E apesar de entender que gerenciadores de sistema realmente capazes dessa tarefa não custam barato para nós, tanto a fração do custo quanto o papel que representam em um PA deveriam tornar suas escolhas imperativas. Cenário mais desolador ainda, é aquele em que o processador está lá, mas o ajuste não. É o típico caso do alazão arreado sem o peão para conduzi-lo. É obvio também que para o "baile do fulano dj", festas rave e demais orgias de entretenimento pela música ( supostamente ), toda essa conversa de manutenção da curva ( e em casos mais preocupantes, da resposta de fase também ) com a variação de níveis é absolutamente "nonsense". Mas para espetáculos musicais minimamente artísticos e zelosos com a "boa emoção", um sistema que reaja consistentemente às variações de SPL faz muita diferença.

 

Existe ainda um cenário mais cruel e imponderável dessas inconsistências: a variação/degradação da curva pelo aquecimento dos transdutores. Testemunho com indesejável frequência, a ineficiência de vários sistemas em manter uma refrigeração satisfatória dos componentes após determinado período de uso. A partir do ponto em que o aquecimento se torna crítico, meu único anseio passa a ser o fim do espetáculo.
 

Aqui uma observação importante: cada um de nós possui uma capacidade de percepção/avaliação bem distinta. O que é crítico pra mim pode não ser para a maioria e vice e versa. O que elimina a subjetividade aqui é que tudo isso pode ser aferido.

 

De volta ao subs, embora estejam sujeitos aos mesmos "fenômenos" mencionados acima, tanto a escala quanto a relevância dessas alterações são muito distintas do resto do sistema. Ao variarmos a pressão sonora de todo o sistema com nossa mix ( e considerando um perfeito acoplamento entre as vias ), as inconsistências apresentadas pelos subs não desvirtuam nossa música como a "parte de cima". Nos casos mais grosseiros, o que notamos é basicamente uma mudança de "preenchimento" nessa região do espectro, e não um apontamento de determinadas frequências. São alterações igualmente indesejáveis é verdade, mas bem mais administráveis e sutis, o que nos leva à real dificuldade em relação aos subgraves: uma cobertura satisfatoriamente homogênea. 
 

Em uma sentença: não existe uma receita mágica. Não há um arranjo milagroso que dê conta de todos os cenários possíveis. Elementos como a distância entre os dois lados do PA e principalmente a geometria da área de audiência, tanto no eixo horizontal quanto no vertical, exigem sempre uma abordagem dedicada. Não quero acreditar que seja isso que esteja sendo "vendido" ao nosso mercado, mas lamento informar que é essa a tese que um grande número de pessoas tem "comprado". Precisamos urgentemente contradizer essa idéia com certa veemência. Não sou das melhores pessoas pra isso. Não sou "ninguém" no mercado. Mas me sinto realmente constrangido ao ser abordado por alguns amigos que entenderam "essa estória" da seguinte forma: faça assim ou faça assado e tudo estará resolvido. Isso NÃO EXISTE, amigos. Ponto! Estudar, discutir, aplicar e aferir todo conhecimento catalogado sobre o assunto é sem duvida alguma o caminho para se chegar às melhores soluções "em campo". Mas quando o entendimento desse debate escorrega para a superficialidade, e um grande número de profissionais o acolhe como "truques a serem decorados", um grande sinal de alerta precisa ser aceso. Não se iludam, há uma enorme complexidade por trás de tudo isso. Não podemos assumir o comando de um Airbus A380 com a postura de um candeeiro de carro-de-boi. São controles diferentes para capacitações diferentes.

 

Cuidar com excelência de todos os aspectos do "alinhamento" de um sistema em uma "arena" qualquer de shows ( cobertura, niveis, fase, curva.... ), além de requerer igual excelência do profissional, demanda do mesmo uma clara visão de quais são as prioridades. Em grande parte dos cenários, alinha-los passa pela arte de saber ceder. As condições "ideais" são raríssimas. Dessa forma, se priorizamos apenas dois décimos do espectro, estamos cedendo em sua quase totalidade. 


Há algo muito errado nisso... é hora de equilibrarmos esse debate. 
 

Bom equilíbrio a todos!

 

 

Por Rodrigo Martins

Please reload

 Siga o #DICASDOBARBA 
  • YouTube - Black Circle
  • Facebook B&W
 POSTS recentes: 

03.09.2019

Please reload

 procurar por TAGS: 
Please reload