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Como nossa música tem desprestigiado o Áudio

11.03.2017

 

Tenho boa parte desse texto reunida há algum tempo, fruto de pesquisas para o curso que ministro sobre mixagem. Os amigos que já participaram, certamente se lembram dessas imagens. Entretanto, e apesar do marco que esse sistema estabeleceu em áudio para shows, minha abordagem fundamentada na "Parede" para esse curso especificamente, não prioriza seu feito "tecnológico", mas sim sua singular representação espacial de cada instrumento na "mix" final.

 

Detalhes à parte, o post a seguir é, em boa parte, uma compilação contextualizada de meu material didático. Boa leitura.

 

O que impulsionou tamanho investimento...


Em uma sentença: a efervescente e talentosa cena musical do fim dos anos 60 frustrada e tolhida em suas performances ao vivo pela tecnologia disponível à epoca. Era um dilema comum a todos os ícones musicais daquela geração. O Greatful dead se dispôs a encontrar uma solução. Em valores aproximados e atualizados, o investimento foi da ordem U$ 1,5 milhões num período de 1 ano. 
 

O que viabilizou o investimento...
 

Dois fatores basicamente: a grande demanda por shows da banda e seu visionário engenheiro e patrocinador, Augustus Owsley "Bear" Stanley III. 
Bear ( Urso ), como era chamado, foi realmente singular. Bailarino, químico e profissional de audio, foi o maior produtor ( como indivíduo ) de LSD na California em seu período. A comercialização de uma grande quantidade da droga ( lícita até 1966 ) deu a Bear um considerável lucro. Essa saúde financeira associada à paixão por música e áudio o fizeram investir e patrocinar não só a "Parede" como várias gravações da banda. Foi dele a inspiração para o sistema. Ele esteve no epicentro de toda essa revolução, juntamente com membros da Alembic e de uma equipe dedicada. Mais do que sua colaboração, havia uma cumplicidade técnica, artística e comercial entre Bear e o Dead.

 

Alguns números da "Parede":


48 amps McIntosh MC2300 de 600W;
586 falantes JBL;
54 tweeters Electrovoice;
75 toneladas de equipamento aproximadamente. 
Alguns números do Greatful Dead:
Aproximadamente 2.350 shows com público estimado em 25 milhões de espectadores. Média de 80mil por show;
Cerca de 2.200 shows gravados;
Setlist de até 500 músicas.

 

Duas reflexões básicas: a tecnologia aplicada à "Parede" e a peculiar abordagem da banda em relação a seus shows.

 

1. O pioneirismo do sistema é evidente e inquestionável. Foi o primeiro PA a utilizar o conceito de line array em sistemas de grande porte. Relatos consistentes de membros da equipe reportam que o sistema irradiava audio de qualidade a 180 metros aproximadamente. Boa parte da equipe possuía uma cópia da publicação de Harry Olson de 1957, "Acoustical Engineering", xerocada de um único exemplar existente na biblioteca de física da Universidade da Califórnia em Berkeley. A abordagem singular de Bear se fundamentava no conceito de uma única "origem" sonora para cada instrumento. Banda e público eram assistidos pelo mesmo sistema.

 

O enorme complicador da realimentação iminente, foi minimizado por duas frentes: como imaginou Bear, um sistema de resposta muito linear ( associado ao uso de microfones com resposta igualmente plana ) causaria pouco ou nenhum problema de microfonias. O conceito aplicado na "Parede", em que cada instrumento possuía seu próprio cluster, tratava de forma eficiente as indesejadas ( e recorrentes em um sistema estéreo ) distorções por intermodulação, o que combinado a bons conjuntos "amp x falante", proporcionava um impulso acústico satisfatoriamente linear.

 

Mas o crítico posicionamento dos microfones em relação ao sistema exigiu uma segunda premissa: "rejeição" à irradiação direta. A solução encontrada foi um arranjo com duas cápsulas omnidirecionais idênticas, espaçadas verticalmente em 3 polegadas e somadas com polaridades invertidas. As vozes por exemplo, eram dirigidas ( captadas ) à cápsula superior durante a performance, criando distinção clara entre a captação de cada microfone. Quando o músico se afastava do arranjo ( e a todo momento, considerando os vazamentos recebidos igualmente pelo mesmo ), essas cápsulas se encarregavam em cancelar o audio captado graças à inversão de polaridade entre elas e ao fato de receberem ambas o "mesmo" áudio na "mesma" amplitude. Em tese, genial. Na prática, havia considerável coloração ( entendam, degradação ) na captação da fonte sonora.

 

Apesar disso, os relatos são também consistentes em afirmar que a clareza e definição do sistema eram impressionantes. 
Além de todo esse avanço na qualidade do audio entregue ao público ( e por conseqüência na qualidade da música ) o conceito da "Parede" fundamentava-se ideologicamente na liberdade de cada membro da banda em controlar sua arte. Cada músico estava no comando do que ouvia e do que a plateia ouvia de seu instrumento. Não havia um FOH. O papel da equipe, além de montar e conectar tudo aquilo era o de " somente " assegurar que tudo funcionasse durante o show. Obviamente a existência dessa liberdade artística só encontrava sucesso no resultado final em função do grande talento musical presente no Greatful dead. Funcionavam realmente como banda.

 

2. O Greatful Dead, a exemplo da postura de algumas outras bandas da época, incentivava seu público a gravar suas apresentações. Em todos os shows havia um considerável grupo de fãs e audiófilos que levavam consigo o que possuíam de equipamento de gravação para captar a apresentação da banda. Chegou a ser caótico esse cenário. Em alguns shows viu-se um verdadeiro "pomar" de pedestais e microfones. Diante disso a banda passou a reservar uma área específica para essa pratica. Em várias oportunidades houve acesso também ao sinal direto do equipamento para gravação "em linha". Bacana não é!? O principal elemento de entusiasmo para essa prática residia no fato de a banda "jamais" tocar uma determinada música duas vezes do mesmo modo. Chegaram a fazer versões de cerca de meia hora de alguns sucessos. Havia muito improviso e vários medleys eram criados durante os shows. Era uma clara demonstração de identidade e segurança.

 

Pois bem, apresentados os fatos ( ou ao menos os relatos históricos ), façamos agora um exercício de transposição de todo esse cenário para os dias atuais, considerando todas as inovações da "Parede" e o que se projetaria dela nos dias de hoje.
Há quase 25 anos o conceito de line arrays passou a dominar a sonorização de grandes shows pelo mundo. Desses 25, há mais de uma década tem-se aplicado arranjos de sistemas em "double hung" ( ou qualquer nome que preferirem ) ou "triple hung", em que grupos distintos de canais de mixagem são endereçados a clusters dedicados ( Backstreet Boys, Rock in Rio, Red Hot Chili Peppers, Blink 182, U2, etc ), criando enorme headroom e inteligibilidade. Com o nível de controle da dispersão e linearidade a que chegamos, colocar um sistema como o EAW Anya/Anna atrás de uma banda sobre o palco ( com várias "colunas" ) seria uma tarefa bem mais amena do que a experiência do "Dead" com a "Parede".

 

Além disso, alguns algoritmos já existentes de automação em mixagens poderiam se encarregar em abrir/fechar canais de vozes para minimizar "vazamentos", sem mencionar o enorme arsenal disponível hoje em forma de plugins para processamento de níveis e equalização dinâmica e alguns outros artifícios como gates ópticos por exemplo. O controle de cada músico sobre "seus canais", pode ser feito hoje com facilidade através de tablets e smartphones e a mobilidade dos mesmos ( músicos ) no palco ( o que inclui a possibilidade de flexibilizar inclusive, qual parte do sistema estaria reproduzindo seu instrumento a cada momento ) poderia criar vários arranjos "espaciais" para a mix final. Enfim, é um belo exercício de imaginação. Mas como ficou claro, a "Parede" era acima de tudo, um meio para que o Dead expressasse sua arte. Ela estava a serviço da música e de seu público. Era uma clara e contundente representação da busca de um artista por excelência e distinção. 
 

Lamento amigos, mas no Brasil de hoje não há um exemplo sequer que remeta fragilmente a esse nível de prestígio dado ao PA. Mais ainda, são pouquíssimos os espetáculos que pretendem essa abordagem artística da música. Estamos em um momento de sistemática "industrialização" dessa arte. Isso está evidente não só na fugacidade de conteúdo das obras mas também na monotonia de suas formas ( áudio ).

 

As mixagens aplicadas em nossa música "popular" estão uniformizadas e estéreis. É quase proibido romper com o "padrão" que se estabeleceu para cada estilo musical. Um verdadeiro marasmo de criatividade e experimentação. Como conseqüência previsível, há também essa carência de sofisticação artística no audio para shows. 
Por outro lado, há nesse momento uma enorme exposição do que acontece nos mesmos. A possibilidade de "registra-los" ( ou transmiti-los ao vivo ) em audio e video tem resgatado essa importância adormecida ( para muitos artistas e produtores de eventos ) do som do PA ( cabe aqui uma menção ao equipamento utilizado para tal: smartphones, em sua grande maioria. Oportunamente, comentarei o assunto ). É como um retorno ( meio que às avessas ) da liberdade dada pelo Dead a seu público para grava-los. Para artistas e técnicos a exposição de seus trabalhos está se exacerbando. Parece razoável que todos passem a se preocupar mais com o audio de seus shows ( e com suas performances ), uma vez que seu público sistematicamente tem feito e fará registros dessas apresentações, quer queiram, quer não. E acima de tudo, nosso trabalho técnico e artístico comandando a música do FOH, poderá voltar a ser tratado com cumplicidade e parceria pelo artista, já que tanto o mérito quanto o fracasso dessas apresentações, será creditado a ambos com mais ênfase e frequência. 


É minha esperança de fato ... vejamos onde tudo isso nos levará. Até lá, bons shows a todos!

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